Pirraias da UFPE
Confira o nosso blogO projeto "Pirraias da UFPE : não quero moedas, quero dignidade", está inserido num contexto da realidade nacional. Todos os dias, pelas ruas do país presenciamos crianças que, durante todo seu tempo, ou em seu tempo livre, fazem uso da mendicância nos semáforos, esquinas e portas de estabelecimentos. Essa prática os torna mais vulneráveis que o normal. Pois, ao se falar da infância e adolescência e parte-se do fato de que existe a vulnerabilidade da idade, o que pressupõe formação e cuidados especiais. No caso dos meninos mendigos, existe o agravante de estarem à mercê de uma lesão moral e social grave, somadas ao fato de que, estando nas ruas e não em suas casas ou na escola, correm o risco de sofrer além de violência moral, a violência física, uma vez que estão desamparados.
Na cidade de Recife este cenário não é diferente, ao contrário, é mais comum do que se imagina. Aparentemente a maioria da população já se acostumou com a situação, estando acomodadas e inertes em relação ao problema, que apesar de corriqueiro, continua tão grave. Desde 2005, a prática da mendicância no interior da Universidade Federal de Pernambuco, vem aumentando.
Não queremos ficar na inércia, não estamos tranqüilos.
Estamos falando de uma realidade posta, portanto, o problema não é resolvido com discursos contra esse fenômeno social. Apenas pagar um lanche para o menino que pede moeda, ou permitir que “vigiem” o carro não é suficiente para apaziguar nossas consciências.
Trata-se de meninos mendigos dentro de uma Universidade Federal, local onde a finalidade é a produção de uma sociedade melhor, mais justa e civilizada. Esses garotos, tão próximos às salas de aula da Universidade, na verdade, encontram-se distantes de suas práticas e principalmente da probabilidade de mudança e ascensão social que um curso de graduação ou pós-graduação deve promover.
É importante trazer essa realidade para próximo dos meninos, chamados pelos que convivem com eles de "Pirráias", uma pronúncia regional para "pirralhos", que são geralmente meninos que trazem incômodos e transtornos.
A idéia de implementar esse projeto partiu da necessidade de agir efetivamente, com didática adequada, psicologia necessária e disposição para atender esse público. Usar o espaço ocioso da Universidade Federal de Pernambuco para atender as demandas da comunidade ao seu entorno, não em uma ação meramente assistencialista e recreativa, mas com foco educacional, de aproximar crianças e adolescentes do vocabulário da Universidade, reavivar sonhos e criar expectativas reais, antecipando-se ação do crime organizado, que se faz tão presente nas periferias de Recife, e, sabemos, poderá recrutá-los, transformando-os em mestres da criminalidade, quando o correto seria que fossem mestres em CIDADANIA.
O projeto já está em andamento e atua dentro da linha programática de garantia dos direitos da criança e do adolescente, e tem como principal finalidade extirpar a “cultura” de mendicância que existe no âmago da UFPE, particularmente, no setor de estacionamento do Centro de Educação e Centro de Filosofia e Ciências Humanas, área em que a maioria dos membros da equipe atua profissionalmente e onde o Professor Dr. José Luis Simões, coordenador da iniciativa, leciona.
Afirmando o caráter extensionista da Universidade e com o propósito de promover a cidadania e a cooperação entre os garotos, pretende-se influir na vida das crianças e adolescentes que circulam pelo campus da UFPE em condição de risco social. Isso será feito, disputando com o mercado do crime, os corações e mentes das crianças e adolescentes, não na perspectiva do enfrentamento direto, que cabe ao sistema de segurança pública, mas, mostrando aos beneficiários, múltiplas possibilidades de trilhar caminhos cuja Educação e a qualificação pessoal possibilitam dignidade e ascensão social.
Para isso o projeto "Pirráias da UFPE" agrega práticas educativas e de lazer, como estratégia de aproximação com a comunidade de adolescentes da Várzea, bairro que margeia a UFPE, visando tirá-los da condição de mendicância.
Teve início um processo de trabalho que se realizam com atividades esportivas e recreativas, aos sábados, das 8h as 12h, em quadra coberta, no Núcleo de Educação Física da UFPE. Tal função foi designada aos estudantes e professores de Educação Física, estudantes de arte cênicas, terapia ocupacional, comprometidos com a formação do cidadão, física e moralmente.
Essas atividades, que possibilitam o convívio dos meninos com a Universidade através de outro contato, que não da mendicância, agora podendo entrar pela porta da frente e fazendo parte de uma atividade oficial da instituição, tem apresentado a eles a possibilidade do sentimento de cidadãos participantes da comunidade do campus, colocando a academia como um objetivo possível de práticas de esporte, recreação e educação - parte do mundo universitário, do qual, agora, os meninos podem participar.
Desenvolvido por José Abelenda Neto